2002/06/18

14/04/1998
Tempo, misterioso tempo.
Nascer...
Crescer...
Entrar na roda da Vida
Viver
Rodar
Girar
Às vezes, cansar.
Mas,
Sempre continuar,
Pois é impossível parar...

Cá estou eu. 45 anos. Numa tarde tranqüila, neste hotel no centro de Curitiba. O pequeno salão de eventos está cheio, aqui devem estar mais de 100 pessoas. Dois jovens, uma moça atraente e o outro, quase um guri, consultores da Oracle apresentam um seminário...

Estou aqui meio que por acaso, por isso essa falta de compromisso. Assim aproveito para divagar e escrever um pouco. Estou na última fila, as cadeiras não são nada confortáveis, mas nesse lugar posso relaxar, encostando a cabeça na parede atrás de mim. O público é típico de eventos em minha área, a informática. Jovens entre 20 e 40 anos, a maioria com perfil mais técnico do que gerencial. Não conheço ninguém nesse evento, o que me deixa ainda mais tranqüilo. É bom não precisar posicionar-se, explicar-se, justificar-se, enfim, ter que fazer valer a sua presença. É bom ser quase anônimo num ambiente neutro. É claro que depois vou ter que resumir o conteúdo do que assisti, e até estou levando um kit demo, mas sei que não terei problemas com isso, pois não tenho compromisso de apresentar resultados diretos. Chega as outras pendências todas que já tenho em minha vida.

Pendências... Pressões... Mesmo estando num dos períodos mais tranqüilos de minha vida, parece que sempre tenho pendências remanescentes e pressões latentes, coisas a serem resolvidas. Não necessariamente serem resolvidas, mas para serem terminadas, concluídas. Por exemplo, agora exatamente tenho uma importante situação acadêmico-profissional a ser tratada. Estou no meio - ou pelo menos deveria estar - de um mestrado. Preciso até o final do ano escrever/produzir uma dissertação e simplesmente não estou conseguindo decolar.

Bem, chegar até aqui já foi uma espécie de milagre. Com a minha fraca formação acadêmica e forte formação profissional direcionada para mainframe, ter conseguido primeiro fazer o curso de especialização em Londrina e depois ser aceito para o mestrado na UFRGS só pode ser o resultado de uma mentalização, de uma sintonia espiritual em resposta aos inúmeros pensamentos que fiz em forma de oração, numa busca desesperada por uma solução em minha vida profissional, onde me encontrava praticamente "morto".

Pois é, eu me sentia como morto e revivi. E agora estou com essa sensação de perigo, de um risco iminente de perder tudo e voltar à estaca zero. Ou pior que zero, pois dificilmente poderia voltar a minha situação anterior.

08/05/1998
Palestra na PUC, sobre Informática na Educação. O auditório é enorme, para um público de não mais do que 10 alunos assistindo. Uma professora da UFRGS apresenta o tema de forma entusiasmada. Admiro seu empenho, mesmo falando para um público tão pequeno.

Releio as anotações do dia 14/4 e percebo que em 3 semanas a minha situação melhorou um pouco. O projeto de pesquisa sobre o Lotus Notes está quase aprovado, e o fato de ter arranjado uma boa solução para um problema da SECS me deram mais ânimo.

Um pequeno susto: a visita anual ao urologista mostrou que uma prostatite estava iniciando. Agora estou há quase um mês tomando antibiótico (Bactrin-F). Na consulta homeopática com a Dra. Beatriz ficou claro que a raiz do problema é "desistir", estar desistindo de alguma coisa. Parece que ela acertou em cheio. De uma certa forma estava bastante desanimado com um possível fracasso no mestrado. Os demais aspectos de minha vida também careciam de uma autêntica "alegria de viver". Crença em idade foi outra indicação (Louise Hay). Embora ainda me considere interiormente imaturo (uma criança), um pensamento recorrente anda me perseguindo ultimamente: três dos meus primos, com quem convivi bastante na infância e adolescência já morreram.

Três histórias tristes. Dois deixaram família, um nunca se encontrou. Sofrimento, dor, choque, tristezas. O primeiro deles, o Mário, pelo que soube vagamente, teve uma espécie de derrame que fazia com que o sangue se esvaísse por todas as partes do corpo. Foi com ele que freqüentei a escola primária, por três anos sua mãe foi nossa professora. Ele era meu companheiro de estudos e para as brincadeiras mais "sociais". Aprendi a andar de bicicleta na pequena bicicletinha dele, um dos poucos privilegiados que tinha tão precioso tesouro em Batatais. Através de sua sensibilidade aprendi a conversar, a ouvir e me interessar pelo que as pessoas diziam. Ele gostava de representar, fazer pequenas peças de teatro onde quase sempre incorporava papéis femininos. Uma de suas brincadeiras preferida era pedir para eu representar a sua "comadre que vinha do Rio para visitá-la". Eu não curtia muito esse papel, e acabava pedindo para mudar a brincadeira. Mesmo não entrando muito nas suas brincadeiras, eu convivia bem com meu primo Mário, pois fora esses deslizes ele era uma pessoa legal. Não era chegado em futebol, caçar passarinho e essas outras brincadeiras dos demais meninos, mas gostava de ler e tinha sensibilidade, duas qualidades que desde muito cedo aprendi a apreciar nas pessoas. Bem, parece que ao longo da vida esse seu jeito afetado acabou prevalecendo, seu lado feminino cresceu e tomou conta, não deixando espaço para o lado homem assumir.

Quando eu ia pousar em sua casa, lembro que sua mãe nos contava histórias aterrorizantes. A criançada curtia ouvir essas histórias, depois ficávamos com medo, pois na escuridão daquele mato onde era a sua casa, qualquer barulho lá fora que fizesse os cachorros latirem poderia ser a Mula Sem Cabeça ou o Lobisomem chegando para nos pegar. Meu tio estava quase sempre viajando, então minha tia ficava responsável por um monte de crianças; nesses dias ela vivia dessas grandes emoções auto-produzidas.

Fiquei triste quando soube da morte triste de meu primo Mário. Mas acho que principalmente fiquei triste por ter deixado que a vida nos tivesse afastado tanto. Por mais de trinta anos praticamente nem mais ouvira falar dele. Minha irmã Iracema, que é quem faz a ponte com várias partes de nossa família, de vez em quando contava que ele trabalhava num salão, como cabeleireiro, e que depois teve o seu próprio salão. Pelo que soube, morreu sozinho, dessa doença incurável que lhe fazia perder sangue por todos os poros. A Dra. Beatriz disse que o sangue simboliza a alegria da vida, então esse meu pobre primo deve ter morrido num estado de muita tristeza.

O segundo deles foi o meu primo e cunhado, Marco Antonio. Com esse eu convivi muito próximo, pois nossas esposas são irmãs. A história dele eu conheço bem. Hemofílico, desde criança passou por várias crises onde pequenos machucados traziam complicações incompreensíveis para nós, os outros primos "normais". Nos seus últimos seis anos, após uma cirurgia para descompressão da coluna vertebral, ficou paraplégico e dependendo da esposa para muita coisa. Suportou com dignidade. Sua racionalidade predominava e encarava a situação sem ilusões. Convivemos e compartilhamos juntos muitos bons momentos, antes e depois desse seu acidente.

O terceiro primo foi-se mais recentemente, há pouco menos de um ano. O José morreu de infarto, seu coração de obeso descuidado levou-o subitamente. Em minha infância seu papel foi muito importante. Com pouco mais de sete anos, quando me mudei para Batatais, foi com ele que aprendi a caçar passarinho. Na verdade, com ele aprendi inclusive a fazer a cetra, ou seja, achar um sapato velho, cortar um pedaço do couro, procurar uma forquilha boa num galho de árvore, cortar os elásticos de câmaras de pneu (os de bicicleta eram melhores, por serem mais moles). Tudo era amarrado com finas tiras de elástico. Depois era só juntar um bolso de pedras e sair pelos mangueirões caçando as rolinhas (que conhecíamos como pararus), pardais e, principalmente, coleirinhas. Às vezes nem era preciso sair pelos matos, bastava ficar sentados na sombra da parede do açougue velho, e os passarinhos bobinhos vinham se enfileirar nos fios de luz, muito próximos de onde estávamos. Era quase uma covardia abatê-los. Mas nós fazíamos e nos sentíamos muito bem. Com ele também aprendi a preparar anzol para pescar. Escolher um bambu no mato, comprar a linha, chumbinho e os pequenos anzóis no armazém de seu pai, preparar a parte central de uma pena de galinha ou uma rolha para fazer flutuar a linha, depois catar minhoca debaixo das pedras, ou caçar moscas, ideais para lambaris...

Esse primo também era o dono da única bola de couro, e nós, o resto da gurizada tínhamos que o tratar bem na hora do futebol, senão ele pegava a bola e ia embora...

Além de ser meu companheiro de caçadas, pescarias e futebol, o José também foi responsável pela minha introdução num outro universo, que foi muito importante em minha formação. Ele e o Casimiro, filho do Jeca Sapateiro eram coroinhas, ajudantes do padre Chico nas missas de domingo. Assim, através do primo José eu passei a ser também ajudante do padre. Vestia uma roupa branca e vermelha sobre a minha e participava daqueles rituais maravilhosos e misteriosos das missas de domingo. Gostava muito da parte da consagração, quando o padre levantava a hóstia e nós batíamos uma sineta, que ecoava um som maravilhoso e solene em toda a igreja. A missa era em latim, com palavras desconhecidas, cheias de significados secretos. Após a missa, o padre nos dava algum dinheiro, que ele retirava da bandeja da coleta. Eu achava até estranho ele nos pagar por fazermos algo de que gostávamos muito. Bem, a esse meu terceiro primo morto eu devo a introdução a essa busca externa da espiritualidade. Porque a busca interna já estava implantada em mim desde a mais tenra infância.